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O Gavião

O Gavião Através de uma janela da cozinha aqui de casa, quando estou à mesa tomando o café da manhã, entre às 5:30 – 6:00, vejo um gavião de pequeno porte se alimentando sobre uma antena de TV; daquelas antenas que chamávamos espinha de peixe, no entanto, hoje elas têm um desenho de tamanho menor. O gavião ao qual me refiro se alimenta de bichos pequenos do tipo roedores. Ali da antena ele tem uma visão ampla para atacar as presas. Às vezes ele pousa na antena sem nenhuma presa em suas garras, porém fica observando, aparentemente sem pressa, de um lado e de outro e com pouco tempo voa em uma direção e volta rápido, desta feita com um bicho, prende-o sob seus pés, observa ao redor e começa a dilacerar a carne morna. Aqui nesta região também tem o gavião carcará, de grande porte e beleza, como se vestisse “smoking”(tuxedo) para desfilar sobre o tapete vermelho(red carpet holywoodano); ele é nossa águia, aquele que a canção dizia em meados dos anos 60 e que eu ouvia na terra dos Guarara...

Rua Dezesseis

A Rua Dezesseis, em São Gonçalo/PB era, com efeito, famosa e foi citada no livro "Vingança, Não" do Pe. Pereira Nobrega,  como uma rua que tinha dezesseis casas de cada lado e dezesseis do outro, habitadas por funcionários graduados que trabalhava na construção do Açude de São Gonçalo nas décadas de 20/30, do século passado. Era bonita, casas térreas padronizadas , com muitas árvores, em maior parte de fícus frondosos, jardins, pavimentada de paralelepípedos e postes com com iluminação elétrica. Quando ia à casa de meu avô materno, que ficava à margem da represa, via fiscais passarem em canoas motorizadas em direção a nascente do Rio Piranhas, que deu origem ao açude ou represa de São Gonçalo. Sou de São João do Rio do Peixe/PB, porém fui criado em Marizópolis e, devido a proximidade, sempre havia motivos para ir a São Gonçalo. No Carnaval íamos aos bailes do Catete, local onde também ainda há um bom restaurante e o melhor tucunaré frito que fazem na região. Havia um ...

Um pouco de conversa

  “ Só os tolos estão sempre cheios de convicção, enquanto os sábios estão cheios de duvidas” disse Bertrand Russell. Amanheci pensando na citação acima, de um filósofo e matemático que gosto de ler. E fez-me lembrar também de um chefe que tive, negro, jornalista, já falecido: Sr. Hélio Conceição de Sá. No final dos anos sessenta, eu trabalhava em uma seção do departamento de propaganda e marketing de uma empresa conhecida no mercado brasileiro e externo que fabricava forros de tetos e divisórias, e o Sr. Hélio, como o tratávamos, era o gerente desse departamento. A seção a que me refiro, ficava em outro prédio, na mesma avenida, porque tinha amostras dos produtos, copiadora e máquina de impressão de folhetos comerciais. Usando essa impressora, imprimíamos também o “Nosso Jornal”, assinando como jornalista responsável, o Sr. Hélio; e nós contribuíamos com artigos e crônicas. Todos os dias, antes de ir para seu escritório, onde ficava a diretoria e os aci...

“A Península”

“A Península” Aquela extensão de terra que nós chamávamos de ilha, ainda que cercada de água por três faces, na represa de São Gonçalo/PB, é na realidade uma península; faz parte de um arrendamento que meu pai tinha há muitos anos e que hoje é de um de meus irmãos. A parte que, digamos assim, é ligada ao “continente” é cercada, e com porteira, e comunica com as terras de outro rendeiro, fato este que quando trazíamos o gado diariamente para o curral, tínhamos que transitar pelo arrendamento vizinho usando-nos de um acordo tácito que às vezes era questionado. A terra da península é elevada, comparado ao arrendamento principal, e no centro, como se fosse um mastro com uma bandeira, havia uma árvore frondosa que, se me lembro bem, era um juazeiro. Eu sentia, quando adolescente, grande encanto por aquela pequena extensão de terra e não atentava para o aspecto geográfico de ser uma ilha ou uma península. Havia plantações de milho, algodão e feijão, etc, no período das chuvas. As vacas leite...

O Templo

Quando vi aquele templo católico de colunas greco-romanas demolido, e em seu lugar um prédio que mais parece “um shopping center”, também católico, deu-me uma sensação desagradável de descrédito e de desânimo. Eu não mais morava naquela cidade há muitos anos, há décadas, por quê teria eu aquela preocupação? Bom, o padroeiro é Santo Antonio. Quando éramos crianças íamos às missas, fazíamos a primeira comunhão, crisma, lá; também as festas, quermesses, do padroeiro, em Marizópolis /PB. Muitas vezes o pároco, em exercício, almoçava lá em casa e em casa de meus tios. Quando saiu a notícia e as fotos no Facebook, reclamei muito. Já não havia mais jeito, a Inês já era morta. Aí um senhor disse que eu não entendia nada de igreja. Eu respondi que a igreja continuava, independentemente do prédio, já que uma igreja é uma reunião de pessoas que tem a finalidade de comungar suas crenças, de rezar. Ele não replicou. Fico chateado quando vejo sobrados e vilas destruídos, para dar lugar a prédios de ...

Natal

Não tínhamos muito interesse pelo Ano Novo, festejávamos mais o Natal; para nós havia razões para seguir o que os padres e pastores pregavam. Mas as coisas foram mudando, aos poucos, em pequenas doses, em um tempo que não está tão longe. Não sei porque as Igrejas não conseguiam manter as pessoas no âmbito das religiões. Não tem nada a ver com progresso, “isso não é progresso, isso é tentação do diabo” assim dizia seu João da bodega. E seu João apontava para pintura de Cristo crucificado, pendurada na prateleira dizendo para seus fregueses que bebiam cachaça com raiz de catuaba: “este homem nos salvou” e todos, concordavam e, por respeito, tiravam os chapéus das cabeças. Íamos para as igrejas católica e Batista, porque a família, àquela altura, estava dividida(não era uma divisão exata, havia mais parentes na Igreja Católica) pois tínhamos avós nas duas religiões. Chamavam os protestantes de “bodes”, muito antes do “politicamente correto”. Em um dos livros do Jorge Amado, não me lembr...

Salada Paulista & Outros

Salada Paulista & Outros   Eu ia com muita freqüência à Salada Paulista na Avenida Ipiranga e na Avenida São João. Nem preciso dizer onde estão localizadas estas duas famosíssimas avenidas, cantadas em músicas, versos e prosas, principalmente aos domingos. Eram restaurantes que serviam refeições em  grandes e altos balcões, em forma de um "U"; eram práticos, rápidos, baratos, e lotados. Gostava muito da macarronada (espaguete) com frango, molho de tomate e queijo parmesão ralado; também da sopa, à noite depois do cinema. Outro restaurante do tipo da Salada Paulista era um que ficava na Av. Rio Branco, próximo do Largo do Paissandu, cujo nome não lembro, neste também havia vários tipos de pratos, mas o que eu mais gostava era o “Risoto à Catarina” (homenagem a florentina Regina Cathêrini di Médici): arroz(acho que não era arroz arbóreo, da receita original), peito de frango cozido, desfiado e cortado em pequenos pedaços, moela de frango cortada em quadradinhos, ervilha, ce...

A Prévia

“A Prévia” Era um bar em Manaus que tinha este nome porque reunia mais pessoas às quartas feiras. Como era um dia no meio da semana, diziam os freqüentadores que era uma prévia do fim de semana. Havia comentários que alguns freqüentadores iam lá no bar para discutirem e oporem-se a política de promoções, desligamentos e problemas salariais das empresas sediadas na Zona Franca. Diziam que faziam “panelinhas”. Tendo em vista que os cargos executivos eram ocupados por empregados transferidos, principalmente de São Paulo, conhecidos como “expatriados”. As cervejas servidas naquele bar eram muito boas, tais como as marcas Cerpa(do Pará) e a Cerma(do Maranhão). A Cerpa, em minha opinião, é a melhor; comercializada em meia garrafa como fazem a Heineken, Stella Artois, etc. Haviam também as marcas nacionais, e a melhor delas era a Antártica que dizem que era destilada com a água local. Serviam também os peixes da região: pirarucu, tambaqui, tucunaré, jaraqui, “et cetera”. O jaraqui era o mais...

O Louco

O Louco Naquele dia numa manhã de verão uma mulher olhou para a calçada, atrás da cortina da janela de seu apartamento no primeiro andar de um prédio, e viu um homem, seu conhecido e vizinho, sentado no meio-fio da calçada, falando e gesticulando sozinho, falando ao vento, e alto. Era uma figura presente e conhecida dos moradores daquela rua. (O prédio que a mulher morava, curiosamente, tinha o número final que era a soma dos dois primeiros). Certo dia a mulher estava incomodada e impaciente, desceu e disse: “olha, você é um louco daqueles que jogam pedra na lua; eu quero lhe dizer que eu sou mais louca que você, às vezes fico enfezada sem nenhum medo de você e posso bater-lhe nessa cara suja”. “Está me entendendo? Disse ela”. Aquele louco, tinha boa memória, conhecia e lembrava de quase todos moradores da rua, inclusive de alguns nomes e sobrenomes, em momentos falava dos vizinhos como se estivesse qualificando um personagem. Ele falava como se alguém estivesse à sua frente: “olha ful...

Um dedo mindinho de conversa

Há trinta anos a "estradinha" que usamos para acessar a Rodovia Raposo Tavares, quando mudamos para esta região, era esburacada, não havia casas residenciais e os prédios eram de uma padaria, de um supermercado e de uma loja de material de construção. Havia muitos eucaliptos, pinheiros e algumas árvores da Mata Atlântica. De ambos os lados da estradinha víamos cavalos e bois pastando; e era um bom pasto alimentando animais muito bonitos. Não havia iluminação adequada, um poste aqui outro acolá com lâmpadas que não iluminavam direito. Eram glebas, originadas de uma fazenda, que estavam sendo exploradas e vendidas pelos herdeiros. As pinhas se espalhavam pelo chão e na época do Natal as catávamos para enfeitar nossa árvore e fazer arranjos e guirlandas. Ainda restam alguns pinheiros que produzem pinhas, que além dos usos que fazemos no Natal, também ajudam muito na hora de acender a churrasqueira e a lareira(no inverno). (As folhas dos eucaliptos não têm o perfume daqueles que ...

Em algum lugar, com um celular

Em algum lugar, com um celular   Pois a mulher estava olhando a tela do celular, no meio da rua, parada sobre umas faixas zebradas, cercadas por “tartarugas”; aqueles objetos amarelos, com placas refletoras, fixados ao asfalto, sinalizadores de trânsito, que os motoristas reclamam quando passam por cima delas, por causarem desbalanceamento das rodas podendo até fazer avarias nos pneus e também afetar a suspensão dos carros. Ela vestia um roupão, cor-de-rosa-claro, amarrado à cintura por um cinto do mesmo tecido, por cima de uma blusa e da calça comprida, que descia até o meio das panturrilhas; calçava sapatos pretos de salto alto e por vezes girava a perna usando um dos saltos. Ela era alta, loira, cabelos (aparentemente) pintados que desciam até os ombros, bem penteados, porém não dava para ver seu rosto porque ela estava quase de costas para o observador. Ela passava sobre a tela do aparelho o dedo indicador da mão direita enquanto que com a mão esquerda o segurava. E a mulher co...

Férias em Porto Seguro

Férias em Porto Seguro. Os raios solares tentavam perfurar as nuvens insistentemente, como se teimassem com a nossa importante estrela da Via Láctea, porém as nuvens tornavam-se mais densas e escuras. As jovens prontas, vestiam biquínis e outras maiôs de corpo inteiro, agitavam-se impacientes. Afinal estavam em férias, pagaram passagem e hotel com suas economias, com seus exigentes trabalhos. Os jovens tinham uma alternativa para driblar a falta do sol: andar pela cidade, entrar em um restaurante beber e saborear as iguarias da culinária local. Porto Seguro, berço de nascimento do Brasil, oferece alternativas e o mar continuará lá, imponente, para os próximos dias. Porém, as moças foram para aquela bela cidade para oferecer seus corpos ao sol e ter de volta, como prêmio, o corpo bronzeado, de forma que, quando voltassem para os escritórios em São Paulo, vestiriam roupas leves e decotadas para exibirem seus bronzeados. Para elas o sol estaria sempre presente naquela região e nun...

Meninice

Em minha meninice, a despeito de protestos, principalmente de minha mãe, eu aprendi e também meus irmãos e amigos, muita sacanagem e coisas boas com os chamados, naqueles anos cinquenta, de “moleques” de rua. Não eram os conceitos e definições aplicadas hoje em dia, eram meninos e meninas que tinham casas, pais, mas que brincavam na rua. Jogávamos futebol com bolas de meia e conseqüentes ferimentos nos dedos; brincávamos em montes de areia de construções e chegávamos em casa com a cabeça “que era areia só"; de passar o anel e adivinhar com quem ele estava, e aqui as meninas participavam e deixávamos o anel com aquelas que mais gostávamos(com um devido e discreto piscar de olho), tomávamos banho na chuva, inclusive as meninas de vestidos molhados, revelando suas belezas. Fazíamos competições de punhetas, para quem gozava e jogava a gala mais longe. Estávamos na puberdade, as meninas acabavam sabendo dessa competição, e nos olhavam com olhares enviesados, dissimulados, como Capitú ...

Sonho

 Era uma pequena sala, com o jeito de um ambiente escolar; para dar crença a esta narrativa, aparecia uma professora do meu curso primário, do Grupo Escolar Dr. Silva Mariz. (Logo aquela escola que era tão simples e tão bonita, com salas arejadas, cheias de carteiras pretas, com bancos compartilhados, locais para caneta-tinteiro, local para colocar nossos livros, lousa ampla, onde sempre sobrava escrito em giz do dia anterior, ou vestígios de palavras e frases que, com um pouco de esforço, dava para subentendermos e desvendarmos os significados). Ela mostrava em uma estante uns livros muito bem encadernados, com lombadas verde-escuras, trabalho em capas duras. Aparentemente queria encomendar outras encadernações de outros livros. Naquele instante aparece o ex-presidente Obama, sem quê nem pra quê. Ele olha e pega um dos livros, elogia a encadernação e diz que que é "um trabalho artístico, bonito e caro". E foi só isto, um sonho onde sempre cabe o impossível e onde tudo é poss...

Elaine

  Um dia, não muito distante de hoje, você  disse: “vamos nos encontrar e almoçar juntos, em algum lugar na Paulista, como já fizéramos antes” e eu disse: vamos. Ela disse “porque você é o meu tutor, você é o cara.” Eu havia ajudado-a, a defendê-la para ocupar uma posição no departamento financeiro de uma grande empresa. E ela fez sucesso pelo seu trabalho, sua competência, sua inteligência; não havia nada de mais apenas coloquei sua cabeça numa bandeja, como pediu Salomé. Sabe quando você aposta em uma pessoa? Quando você vê e diz esta é a pessoa certa. Foi o que aconteceu. Ela era a pessoa certa: humana, competente, mãe, e mais tarde avó apaixonada. Eu via na foto a   cara do neto olhando pra ela, apaixonado; porque era fácil se apaixonar pela Elaine. Sinto um vazio imenso em mim, por sua falta, sinto-me perdido no espaço; como um astronauta que estava preso por um fio a nave e por fim desprende-se e perde-se no vazio do espaço.

Dia do chocolate

  Lembrei-me de uma moça, depois senhora, sobrenome holandês, que casara com o Country Manager da empresa, de sobrenome americano. Os holandeses têm sobrenomes que são precedidos por preposições(perdão pelo pleonasmo): van der Escher, por exemplo; também têm: de, van. Nós temos os José da Silva, os Antonio dos Santos, eles têm van der Miller, van Vlit, etc. E a senhora que me refiro fora morar nos Estados Unidos, com o marido. Sabendo de alguém que ia viajar do Brasil para a unidade americana, ela ligava para pessoa e dizia: TRAGA-ME SONHO DE VALSA, caso contrário sua promoção ou seu aumento de salário vai pro saco! Comigo acontecera de trazer um vestido de noiva de Miami, para a futura esposa de um diretor. A secretária do vice presidente da empresa comprara o vestido numa rua tipo "São Caetano" de Miami, colocou-o numa caixa e eu trouxe, junto com meus alfarrábios. Fui convidado para o casamento, bebi espumante(não pode falar champanhe, se não os franceses ficam bravos!), ...

O fusca de meu pai.

O fusca de meu pai Meu pai teve dois Jeeps: um 1953; outro, 1962. Eu gostava do Jeep 1953. Era muito bonito, lembrava os filmes de guerra(lembro de uma foto do General McArthur sentado em um desses Jeeps, fumando um cachimbo de piteira longa); naquela época falava-se muito na guerra, terminada em 1945, no entanto, os efeitos dela ainda permaneciam; a fumaça ainda não tinha sido totalmente dissipada. Meu pai aprendera a dirigir na estrada, quando tinha o Jeep 1962; antes, no Jeep 1953, tinha um motorista que não trabalhava em tempo integral, só quando meu pai precisava ir à alguma cidade ou para comprar bois de corte, o pagava para conduzir o veículo. Fui morar em Recife e meu pai nessa época comprara um fusca que, neste momento, não lembro o ano. Ele gostava demais do carro e dirigia na estrada, que é muito movimentada, com grandes caminhões, etc. A estrada que me refiro vai de João Pessoa (Município de Cabedelo) até a Transamazônica, é a BR-230. Toda vez que eu ia visit...

A "Louca".

Ela fazia as refeições com os donos da casa, dos quais era amiga de longa data, conversava sobre sua família, ria de coisas toscas, mostrando sua obturação de ouro em um dos dentes superiores. Inteligente, nunca estudara em escola formal, tudo que sabia era soletrar algumas palavras e escrever poucas; aprendendo com os outros, devagar, numa vida experiente, observada e de certa forma bem vivida. Após as refeições ela recolhia os pratos, talheres e punha todos sobre a pia da cozinha. Antes de começar a lavar erguia as mãos ao céu e agradecia a Deus por ter se alimentado mais um dia, e terminava se benzendo. Diziam-na louca, porém a convivência de alguns dias com ela, em muitas oportunidades, tinha-se a nítida impressão que ela era lúcida. Diziam que ela não mais gostava de marido, do qual tivera quatro filhos. Como perdera o interesse sexual pelo marido, procurava relacionamentos rápidos e comportava-se como desajustada, falando coisas desconexas; para disfarçar seus desvios de ...

Aracati & Outros/as

Aracati & Outros/as A falta de energia elétrica, nos sítios de meus avós nem era falta(só tem-se falta daquilo que já teve-se e não tem-se mais). Havia lampiões, lamparinas, velas; e pernilongos, muriçocas, carapanãs, para matar nos braços, nas pernas, no pescoço; até em torno das nove horas da noite quando habitualmente sentávamos para prosear, olhar as estrêlas, no terreiro em frente a casa. Esses animais/insetos eram espantados pela fumaça de esterco do gado bovino; era recolhida dos currais e das pastagens, colocada ao sol para secar e quando seca guardada, onde guardáva-se selas, arreios, estribos dos cavalos; enxadas, utensílios usados para arar a terra. Colocava-se pedaços dos estercos em latas de goiabada vazias, acendia-se e pronto, a fumaça subia, com cheiro de capim seco queimado. Nesse horário entrava(e ainda entra) o “Vento Aracati”, refrescante, que vem das praias do Ceará, percorrendo longo caminho desde o litoral até chegar no sertão da Paraíba. Por causa desse ve...

A viagem

A viagem Aquele dia de fevereiro de 196x começou a mudar a vida de GL. Partiu de sua cidadezinha nos confins da Paraíba, na beirada do Ceará, com os olhos marejados, ainda menor de idade(considerando que naquela época quem tinha menos de 21 anos era menor; contudo, tinha 19 anos), levando em conta que 194x o ano que nascera, em meados do mês de Áries. Não queria olhar para trás; atrás de si estavam seu pai, sua mãe e seus irmãos com os corações partidos. À medida que enfrentava a estrada as lembranças iam ficando mais velhas, sem embargo, não esquecidas; e o futuro ia chegando aos poucos e virando definitivamente passado. A viagem fora feita na boleia desconfortável de um caminhão carregado de mercadorias, veículo cujo proprietário fora amigo da família de GL. São Paulo era o sonho de destino de quem queria trabalhar, estudar para ganhar a vida. A maioria dos migrantes iam trabalhar em serviços pesados, de baixa remuneração. Apesar disso a Capital de São Paulo era o Eldorado no im...