“A Península” Aquela extensão de terra que nós chamávamos de ilha, ainda que cercada de água por três faces, na represa de São Gonçalo/PB, é na realidade uma península; faz parte de um arrendamento que meu pai tinha há muitos anos e que hoje é de um de meus irmãos. A parte que, digamos assim, é ligada ao “continente” é cercada, e com porteira, e comunica com as terras de outro rendeiro, fato este que quando trazíamos o gado diariamente para o curral, tínhamos que transitar pelo arrendamento vizinho usando-nos de um acordo tácito que às vezes era questionado. A terra da península é elevada, comparado ao arrendamento principal, e no centro, como se fosse um mastro com uma bandeira, havia uma árvore frondosa que, se me lembro bem, era um juazeiro. Eu sentia, quando adolescente, grande encanto por aquela pequena extensão de terra e não atentava para o aspecto geográfico de ser uma ilha ou uma península. Havia plantações de milho, algodão e feijão, etc, no período das chuvas. As vacas leite...
Salada Paulista & Outros Eu ia com muita freqüência à Salada Paulista na Avenida Ipiranga e na Avenida São João. Nem preciso dizer onde estão localizadas estas duas famosíssimas avenidas, cantadas em músicas, versos e prosas, principalmente aos domingos. Eram restaurantes que serviam refeições em grandes e altos balcões, em forma de um "U"; eram práticos, rápidos, baratos, e lotados. Gostava muito da macarronada (espaguete) com frango, molho de tomate e queijo parmesão ralado; também da sopa, à noite depois do cinema. Outro restaurante do tipo da Salada Paulista era um que ficava na Av. Rio Branco, próximo do Largo do Paissandu, cujo nome não lembro, neste também havia vários tipos de pratos, mas o que eu mais gostava era o “Risoto à Catarina” (homenagem a florentina Regina Cathêrini di Médici): arroz(acho que não era arroz arbóreo, da receita original), peito de frango cozido, desfiado e cortado em pequenos pedaços, moela de frango cortada em quadradinhos, ervilha, ce...
O Louco Naquele dia numa manhã de verão uma mulher olhou para a calçada, atrás da cortina da janela de seu apartamento no primeiro andar de um prédio, e viu um homem, seu conhecido e vizinho, sentado no meio-fio da calçada, falando e gesticulando sozinho, falando ao vento, e alto. Era uma figura presente e conhecida dos moradores daquela rua. (O prédio que a mulher morava, curiosamente, tinha o número final que era a soma dos dois primeiros). Certo dia a mulher estava incomodada e impaciente, desceu e disse: “olha, você é um louco daqueles que jogam pedra na lua; eu quero lhe dizer que eu sou mais louca que você, às vezes fico enfezada sem nenhum medo de você e posso bater-lhe nessa cara suja”. “Está me entendendo? Disse ela”. Aquele louco, tinha boa memória, conhecia e lembrava de quase todos moradores da rua, inclusive de alguns nomes e sobrenomes, em momentos falava dos vizinhos como se estivesse qualificando um personagem. Ele falava como se alguém estivesse à sua frente: “olha ful...
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