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O Pastor

A mãe acordou às 5:00h, quero dizer, ela achava, pela experiência que era este horário, pois não havia nenhum relógio na casa para confirmar. Tinham ideia do horário pela claridade que despontava, pela manhã que descortinava. Chamou a filha, que algum tempo depois apareceu na cozinha, ainda de camisola, esfregando os olhos, sonolenta. Quando esta chegou já havia duas galinhas d'Angola, pintadinhas de cinza e branco,  batendo as asas no chão da cozinha de terra batida, após serem estranguladas. A mãe pegava nos pés e na cabeça da ave e puxava com força para quebrar o pescoço. Era uma violência que já acostumara, que tratava como normal; aliás, nem pensava nisto, era um ato impensado, um costume de seus antepassados. Para fazer galinha à cabidela ou a molho pardo era uma judiação maior, posto que tinha que degolar a ave e esperar o sangue escorrer em uma vasilha.  No fogão à lenha um alguidar de barro grande com água fervendo, para mergulhar as galinhas e, ato contínuo, serem de...

Chagas Braga, o Santista

Chagas Braga, o Santista Meu primo em primeiro grau filho de tia Raimunda, irmã de meu pai. Ele tinha 50% Braga e 50% Simão de Sá; em suma era o que compunha sua genealogia mais próxima. Quero falar só das boas coisas, das boas horas, das coisas que vivenciamos. Os primos são os nossos primeiros amigos, e os primos mais velhos, nossos heróis; nossa diferença de idade era de 7 anos; ele mais velho; ele um rapaz, eu um adolescente. Chagas Braga, creio eu que foi o primeiro santista de Marizópolis, quando quase não havia torcida de times. Era um santista aqui, um flamenguista acolá; talvez algum vascaíno ou seria no futuro o seu irmão Toinho? O Santos tinha o Pelé, o nosso rei; sou corintiano mas aceito-o como rei. Mas quem espalhou a paixão pelo Santos, que eu sei, foi Chagas Braga. Era comum ele nos convidar para ouvir os jogos do Santos, pelo rádio. Aí apareciam Zé Malandro, Camilinho, Zé de Dodó, Antonio Gomes, Manoelzinho Araújo, e muitos dos componente...

Passagem

Passagem H. estacionou o carro embaixo de uma árvore frondosa, logo depois da entrada da garagem da casa de seu amigo  o qual fora visitar. A rua estava tão tranqüila que lhe chamara àtenção, apesar de ser um sábado às 17:00; apenas um vento do outono soprava e movia os galhos mais finos das árvores e como conseqüencia as folhas que caiam rolavam pelo asfalto; e era na verdade o único som que se ouvia. Deixou a porta do carro entreaberta, pôs a perna esquerda para fora enquanto pegava o celular e uns papeis que estavam sobre o banco do carona. Dirigiu-se à porta principal da casa onde fora atendido muitas vezes há alguns anos. Pressionou o botão da campainha, não havia sinal algum de vida na casa. Tentou a segunda vez; desta feita tocou, pouco esperou e saiu. Decidiu bater no portão da garagem dado que às vezes E. jogava tênis de mesa naquele local com amigos. Seu amigo, abriu o portão que era automático, provavelmente acionando um controle remoto. O portão foi se abrindo devaga...

Yo-Yo-Ma

  Yo-Yo-Ma Plateia lotada, palco grande e vazio. Na hora exata entra o músico segurando seu chello e o arco. É um grande teatro em algum lugar do planeta, porque Yo-Yo-Ma, é americano, nascido na França, de orígem chinesa. Mas ele não é mais de nenhum desses países, é do mundo, como também é do mundo o Pelé. Os ligados em música erudita, requisitamos um pedaço do Yo-Yo-Ma; como também temos do Pelé. Só nossa parte(a maior) da Amazônia é exclusivamente nossa. De terno azul claro impecável e gravata preta com bolinhas brancas, sapatos pretos. Cumprimenta o público com leve sorriso, senta-se, coloca o chello entre as pernas, fecha os olhos (não obstante use lentes corretivas, transparentes). O público não dá um só pio, silêncio total. Como se o público quisesse aproveitar o máximo da apresentação. Ele segura o arco e o coloca levemente sobre as cordas do instrumento, a mão esquerda está lá em cima pressionando as cordas e com um movimento no arco começa a Suite nº 1, in G Major,...

A Título de Registro

  A Título de  Registro Agora o ônibus deslizava pela planície sousense, à esquerda já se viam os primeiros coqueiros e os bangalôs de São Gonçalo, e lá em cima da “Pedra Talhada”, imponente: Marizópolis, a Mesopotâmia do Sertão. O rádio do ônibus tocava “Menina Veneno” de Ritchie. Quem ia descer em Marizópolis já se esgueirava para pegar seus pertences, tentando equilíbrio no corredor do ônibus. Para descer em Marizópolis, carecia de avisar ao motorista, porque a passagem vendida em João Pessoa tinha destino final a cidade de Cajazeiras. A viagem de João Pessoa-Marizópolis, durava quase nove horas, devido ao excesso de paradas que o ônibus fazia; umas necessárias, outras para atender acordos tácitos com donos de restaurantes, que nem sempre eram interessantes para os passageiros. Com mais ou menos a mesma distância São Paulo-Rio, na época, fazia-se a viagem em seis horas, em ônibus mais confortáveis. Naquela altura Marizópolis já fora desmembrada da administração de S...

1965

1965 O ano de 1965 foi muito importante na minha vida: pessoal e profissional, mas eu ainda não tinha uma profissão. Trabalhara em lojas, em venda de vários tipos de produtos, desde sapatos, móveis de aço para escritório, discos, até produtos de limpeza vendi. Tinha 18 anos e fui morar em um apartamento em um local privilegiado em Recife, no bairro Boa Vista, na Rua Fernandes Vieira. Por mim mesmo não teria condições de pagar parte do aluguel daquele apartamento, ainda que dividido com mais cinco colegas, às vezes conseguia ajudar nas contas, às vezes não. Era um apartamento de três bons quartos, sala ampla, cozinha, área de serviços e dois banheiros, sendo um destes da empregada. Esses colegas já moravam lá há muitos anos, filhos de gente bem situada financeiramente. Eram comerciantes, donos de fazendas, filhos de políticos do interior da Paraíba e também do interior de Pernambuco, que mandavam seus filhos estudar em Recife. Nesse grupo havia três universitários, já concluindo os cu...

Gertrudes

Gertrudes As filhas de Gertrudes são três, duas já são casadas; a caçula de 18 anos ainda está em casa; o nome desta é Ana Maria. Caso o nome revelasse a personalidade de alguém Ana Maria mostraria ser de um de temperamento previsível, quieta, talvez tímida, apesar de que dificilmente uma mulher seja acanhada. Mas essa Ana Maria é o contrário, é imprevisível, exagerando um pouco, pode-se até dizer que ela é bipolar. Não sabe-se qual é sua reação quando fala-se com ela sobre algum assunto. Gertrudes soube que uma amiga sua falecera, tinha que ir ao velório, mas não queria ir sozinha. Ato continuo perguntou: "Ana, vamos ao velório da Alcinda?" Ana respondeu: "Mãe, você sabe que eu não gosto de ir a velório de quem quer que seja, mesmo sendo de alguém da família." "Mas não pode ser assim, Aninha". Era assim, este tratamento que Gertrudes dispensava à filha quando queria agradá-la ou convencê-la de alguma coisa. Com o pai ela não teimava ou discordav...