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O Morro

O Morro Ele viu-se de repente sobre um morro, de pouca altura, o vento soprava fortemente, como ventava em “(*) O Morro dos Ventos Uivantes”; o topo sem capim ou qualquer forração, só havia terra plana, só tinha capim e árvores nas encostas que desciam para alcançar a planície; era distante da cidade; aliás, ele nem via sinal da cidade. Caminhou em direção a um lugar que pudesse ter transporte para voltar para casa; ele não sabia a razão de ter chegado ali. Viu alguns adolescentes, que aparentemente voltavam da escola,   carregavam mochilas presas aos ombros, perguntou a eles onde teria um ponto de ônibus. Os adolescentes o levaram para um local que era um labirinto, com paredes estreitas de pedra, daquele tipo de labirinto que nos causa aflição, asfixia e desespero para encontrarmos a saída; dando a impressão que nunca mais iríamos sair; passando pelo labirinto ele estaria no caminho do ponto de ônibus. Mas ele se perdera lá dentro e não vira mais os adolescentes. Após sair...

A Casa da Moóca

A Casa da Moóca O design e a arquitetura da casa eram dos anos quarenta, talvez fora planejada e construída por um capomastro* , na Moóca, bairro central da cidade de São Paulo, onde boa parte dos imigrantes italianos moravam. A casa tinha fortes linhas italianas: nas janelas venezianas pintadas de verde-escuro, molduradas de cimento e pintadas de branco; nas portas altas ; na parte externa pintada com “ terracotta orange”; detalhes mantidos mesmo depois de algumas reformas ao longo dos anos. Essa casa que servira de residência de várias gerações da mesma família, palpitava-se que testemunhara nascimentos, casamentos, amores, traições, desavenças e mortes. Olhada de frente, um muro alto, metade de tijolos e colunas revestidos de argamassa e a outra metade, um gradil de ferro trabalhado, com grades cheias de detalhes. O portão de duas folhas, também de ferro, seguia o mesmo formato do gradil do muro. Quando passava-se o portão, atravessava-se o jardim por um caminho de pedras...

Dona G..

Dona G. Dona G., era uma mulher muito bonita: morena clara, olhos pretos e redondos como jabuticaba; cintura bem definida, braços roliços, sempre à mostra, parte por causa do calor, parte por gostar de exibi-los, por vaidade; corpo bem feito, nem era gorda nem magra, era o corpo mais comum da época, porque estávamos no início da década de sessenta. E o tempo forja o estilo, a moda, a arte, a vida. Ela devia estar na casa dos trinta, e já tinha uma filha de três anos. O marido, seu M., era um pouco mais velho, devia ter uns quarenta. Ele gostava de sair de casa à noite para jogar sueca com os amigos, principalmente aos sábados e domingos. Ela ficava sozinha a esperá-lo até tarde; só ia dormir quando ele chegava, ele quase sempre com cheiro de cigarro e de álcool. Ela pensava em fazer algo diferente, quando ele chegasse, contudo, ele caia na cama com todo corpo que beirava a obesidade, de roupa e tudo. Havia um adolescente de nome J., de quatorze anos que morava na casa, parente do marid...

Dicionário do Aurélio

Dicionário do Aurélio Em 1975 ganhei de presente de aniversário a primeira edição do dicionário de Aurélio Buarque de Holanda. Embora haja posteriores publicações, de edições atualizadas, seguindo os acordos ortográficos dos países lusófonos e de novos verbetes, mantenho aquela primeira edição, por haver um apelo sentimental muito forte; além da dedicatória, há assinaturas de meus ex-colegas do departamento onde eu estava lotado. Alguns até não mais estão sobre a Terra. Traba lhava em uma grande companhia holandesa, na divisão de Santo Amaro, em São Paulo, Capital. Organização onde laborei por mais de vinte e três anos. É que há algumas décadas se faziam carreiras nas empresas; o empregado de muitos anos era valorizado, diferentemente de hoje; com efeito, o mercado hoje valoriza aqueles profissionais que já passaram por várias empresas; os que ficam muito tempo nos quadros de uma organização, são considerados acomodados. Havia avaliação de desempenho, mas não era um sistema de met...

Contos Que a Vida Conta

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Download deste livro (e-book) nos seguintes endereços: Amazon, Kobo, iBooks, Google e Hugendubel.de. Também na seção de e-Books das livrarias Cultura, Saraiva, etc. https://www.amazon.com.br/Contos-vida-conta-Antonio-Lins-ebook/dp/B07CWW9NG6/ref=sr_1_6?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=antonio+lins&qid=1554128902&s=gateway&sr=8-6 Você vai encontrar neste livro alguns contos curtos que comecei a escrever em 2014. Tinha quase tudo em rascunhos, em um blog ou rolando em minha mente, querendo sair, como uma erupção vulcânica.  São várias situações vividas por pessoas interessantes que conheci e convivi em Recife, Manaus, São Paulo e no sertão da Paraíba – "levo o sertão dentro de mim", como disse Guimarães Rosa. Há também ficção baseada em personagens reais, como "Adamastor", criado a partir das características de uma pessoa que conheci; já "Madrugada" foi uma lembrança de infância.  Os contos "O vaquei...

Tia Judite

Tia Judite Ultimamente tenho pensando muito nas minha tias irmãs de minha mãe, em especial de minha tia Judite; ela era uma das cinco irmãs de mãe. Embora sendo eu suspeito para falar, a achava muito bonita, educada, falava calmamente, de gestos delicados e nos permitia penetrar em seu olhar fixo e distante. Não tinha muito estudo mas tinha classe. Era magra, de feições finas, e de olhos claros. Podia vestir os vestidos mais simples, contudo lhe caíam sempre muito bem, devido ao seu corpo franzino. Ficou viúva muito nova, mas já tinha tido três filhas e não mais se casou. O seu marido foi Augusto César, homem que pouco posso dizer sobre ele; tenho dúvida se cheguei a vê-lo em vida; vê-lo sim, mas não lembrar porque eu tinha três anos quando ele faleceu. As filhas de tia Judite: Iracy, Iraides e Ivone, são todas muito bonitas e causavam muitos cometários enciumados, pelo menos quando elas iam para Marizópolis. Alguns as achavam de nariz empinado, mas creio era mesmo invej...

Um Jeito de Viver

Um Jeito de Viver “ É peculiar e educada a forma como essa minha amiga de idade na casa dos setenta se dirige às pessoas,” disse Augusto, um amigo de muitos anos, que nos últimos tempos passou a ser mais frequente e próximo: ela diz, quando inquirida, que seu modo de tratar as pessoas com esse jeito delicado, “deve ter vindo do berço”, pois ninguém lhe ensinara esses bons modos; mesmo seus pais. Dona Abigail, como é conhecida, é alta, magra, alva, cabelos brancos como a cal, sem tintura, é viúva e bonita. Enviuvara com menos de 60 anos, poderia até ter voltado a se casar, mas não se interessou, apesar de alguns pretendentes, “inclusive eu”, diz Augusto, também viúvo, em tom de brincadeira (embora por trás de toda brincadeira deva haver vestígios de verdade); “alguns interessantes”, como ela diz vaidosa. Leva uma vida quase monástica; sai pouco de casa. Os vestidos sempre lhe caem muito bem, realçando seu corpo ainda desenhado por curvas; não era mais aquele corpo em forma ...