Postagens

O Templo

Quando vi aquele templo católico de colunas greco-romanas demolido, e em seu lugar um prédio que mais parece “um shopping center”, também católico, deu-me uma sensação desagradável de descrédito e de desânimo. Eu não mais morava naquela cidade há muitos anos, há décadas, por quê teria eu aquela preocupação? Bom, o padroeiro é Santo Antonio. Quando éramos crianças íamos às missas, fazíamos a primeira comunhão, crisma, lá; também as festas, quermesses, do padroeiro, em Marizópolis /PB. Muitas vezes o pároco, em exercício, almoçava lá em casa e em casa de meus tios. Quando saiu a notícia e as fotos no Facebook, reclamei muito. Já não havia mais jeito, a Inês já era morta. Aí um senhor disse que eu não entendia nada de igreja. Eu respondi que a igreja continuava, independentemente do prédio, já que uma igreja é uma reunião de pessoas que tem a finalidade de comungar suas crenças, de rezar. Ele não replicou. Fico chateado quando vejo sobrados e vilas destruídos, para dar lugar a prédios de ...

Natal

Não tínhamos muito interesse pelo Ano Novo, festejávamos mais o Natal; para nós havia razões para seguir o que os padres e pastores pregavam. Mas as coisas foram mudando, aos poucos, em pequenas doses, em um tempo que não está tão longe. Não sei porque as Igrejas não conseguiam manter as pessoas no âmbito das religiões. Não tem nada a ver com progresso, “isso não é progresso, isso é tentação do diabo” assim dizia seu João da bodega. E seu João apontava para pintura de Cristo crucificado, pendurada na prateleira dizendo para seus fregueses que bebiam cachaça com raiz de catuaba: “este homem nos salvou” e todos, concordavam e, por respeito, tiravam os chapéus das cabeças. Íamos para as igrejas católica e Batista, porque a família, àquela altura, estava dividida(não era uma divisão exata, havia mais parentes na Igreja Católica) pois tínhamos avós nas duas religiões. Chamavam os protestantes de “bodes”, muito antes do “politicamente correto”. Em um dos livros do Jorge Amado, não me lembr...

Salada Paulista & Outros

Salada Paulista & Outros   Eu ia com muita freqüência à Salada Paulista na Avenida Ipiranga e na Avenida São João. Nem preciso dizer onde estão localizadas estas duas famosíssimas avenidas, cantadas em músicas, versos e prosas, principalmente aos domingos. Eram restaurantes que serviam refeições em  grandes e altos balcões, em forma de um "U"; eram práticos, rápidos, baratos, e lotados. Gostava muito da macarronada (espaguete) com frango, molho de tomate e queijo parmesão ralado; também da sopa, à noite depois do cinema. Outro restaurante do tipo da Salada Paulista era um que ficava na Av. Rio Branco, próximo do Largo do Paissandu, cujo nome não lembro, neste também havia vários tipos de pratos, mas o que eu mais gostava era o “Risoto à Catarina” (homenagem a florentina Regina Cathêrini di Médici): arroz(acho que não era arroz arbóreo, da receita original), peito de frango cozido, desfiado e cortado em pequenos pedaços, moela de frango cortada em quadradinhos, ervilha, ce...

A Prévia

“A Prévia” Era um bar em Manaus que tinha este nome porque reunia mais pessoas às quartas feiras. Como era um dia no meio da semana, diziam os freqüentadores que era uma prévia do fim de semana. Havia comentários que alguns freqüentadores iam lá no bar para discutirem e oporem-se a política de promoções, desligamentos e problemas salariais das empresas sediadas na Zona Franca. Diziam que faziam “panelinhas”. Tendo em vista que os cargos executivos eram ocupados por empregados transferidos, principalmente de São Paulo, conhecidos como “expatriados”. As cervejas servidas naquele bar eram muito boas, tais como as marcas Cerpa(do Pará) e a Cerma(do Maranhão). A Cerpa, em minha opinião, é a melhor; comercializada em meia garrafa como fazem a Heineken, Stella Artois, etc. Haviam também as marcas nacionais, e a melhor delas era a Antártica que dizem que era destilada com a água local. Serviam também os peixes da região: pirarucu, tambaqui, tucunaré, jaraqui, “et cetera”. O jaraqui era o mais...

O Louco

 O Louco Naquele dia de manhã de verão uma mulher olhou para a calçada, atrás da cortina da janela de seu apartamento no primeiro andar de um prédio, e viu um homem, seu conhecido e vizinho, sentado no meio-fio da calçada, falando e gesticulando sozinho, falando ao vento, e alto. Era uma figura presente e conhecida dos moradores daquela rua. (O prédio que a mulher morava, curiosamente, tinha o número final que era a soma dos dois primeiros). Certo dia a mulher estava incomodada e impaciente, desceu e disse: “olha, você é um louco daqueles que jogam pedra na lua; eu quero lhe dizer que eu sou mais louca que você, às vezes fico enfezada sem nenhum medo de você e posso bater-lhe nessa cara suja”. “ Está me entendendo? Disse ela”. Aquele louco, tinha boa memória, conhecia e lembrava de quase todos moradores da rua, em momentos falava dos vizinhos como se estivesse qualificando um personagem. Ele falava como se alguém estivesse à sua frente: “olha fulano, estou lhe falando a ...

Um dedo mindinho de conversa

Há trinta anos a "estradinha" que usamos para acessar a Rodovia Raposo Tavares, quando mudamos para esta região, era esburacada, não havia casas residenciais e os prédios eram de uma padaria, de um supermercado e de uma loja de material de construção. Havia muitos eucaliptos, pinheiros e algumas árvores da Mata Atlântica. De ambos os lados da estradinha víamos cavalos e bois pastando; e era um bom pasto alimentando animais muito bonitos. Não havia iluminação adequada, um poste aqui outro acolá com lâmpadas que não iluminavam direito. Eram glebas, originadas de uma fazenda, que estavam sendo exploradas e vendidas pelos herdeiros. As pinhas se espalhavam pelo chão e na época do Natal as catávamos para enfeitar nossa árvore e fazer arranjos e guirlandas. Ainda restam alguns pinheiros que produzem pinhas, que além dos usos que fazemos no Natal, também ajudam muito na hora de acender a churrasqueira e a lareira(no inverno). (As folhas dos eucaliptos não têm o perfume daqueles que ...

Em algum lugar, com um celular

Em algum lugar, com um celular   Pois a mulher estava olhando a tela do celular, no meio da rua, parada sobre umas faixas zebradas, cercadas por “tartarugas”; aqueles objetos amarelos, com placas refletoras, fixados ao asfalto, sinalizadores de trânsito, que os motoristas reclamam quando passam por cima delas, por causarem desbalanceamento das rodas podendo até fazer avarias nos pneus e também afetar a suspensão dos carros. Ela vestia um roupão, cor-de-rosa-claro, amarrado à cintura por um cinto do mesmo tecido, por cima de uma blusa e da calça comprida, que descia até o meio das panturrilhas; calçava sapatos pretos de salto alto e por vezes girava a perna usando um dos saltos. Ela era alta, loira, cabelos (aparentemente) pintados que desciam até os ombros, bem penteados, porém não dava para ver seu rosto porque ela estava quase de costas para o observador. Ela passava sobre a tela do aparelho o dedo indicador da mão direita enquanto que com a mão esquerda o segurava. E a mulher co...