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Mal passado

O novo passa por cima do velho, Impiedosamente, apaga os rastros, quebra os ossos. Eu vejo, Eu sinto, Não adianta, "É assim mesmo", dizem; Parece um rolo compressor. Meu Deus! Como somos pequenos! Somos vermes que comem, Mas que também somos comidos. Ei, senhor Charles Darwin, alma imortal, o que você tem a dizer, Além do que já foi dito, É assim mesmo?  

Arouche

       Arouche   Era um sábado que prometia sol, depois de dias a fio de frio; pelo menos é o que noticiava o serviço de meteorologia. Afonso acordou cedo, tomou rapidamente um café e pão com manteiga em pé no balcão da cozinha, saiu e postou-se a frente do elevador no décimo andar. Fora comprar o jornal numa banca de revista no Largo do Arouche, ali perto. De tantas vezes que realizara esse programa, fizera amigos que sentavam nos bancos frios da praça, com o propósito de tomarem um pouco de sol e conversar. Comprou o jornal, dobrou-o e colocou-o em baixo do braço. Voltava para casa e viu um amigo que sentava no banco da praça, era o Anísio. Oi Anísio, bom dia, tudo bem? Perguntou o Afonso com um sorriso largo. Como, você não está bem? Ah é só uma gripe, que em poucos dias desaparecerá, como todas elas. Bom, mas a tosse finaliza as gripes. Se ela está insistindo vá ao médico. Ah já foi? Está tomando o remédio? Sim, não faz efeito tão rápido. O Afonso sentou-se ...

Amenidades

Amenidades Decidi ir na padaria comprar um frango assado, porém eu chegara um pouco cedo, era um Domingo, não um domingo como qualquer outro, de alguns anos atrás, porque havia a pandemia. As carnes, os frangos ainda ardiam nos fornos então eu tive que esperar. No passado eu costumava beber cerveja enquanto aguardava; na realidade, de propósito, até chegava mais cedo para beber uma Heiniken, que o atendente chamava de “Raiquinen”. No balcão haviam duas pessoas bebendo, aparentemente amigas de longa data, pela confiança com que falavam de assuntos íntimos. O suor da cerveja escorria devagar pelas tulipas geladas, e em copos americanos uma dose de “Esteinhaeger” para cada um. Conversavam sobre relacionamentos, mais precisamente sobre o casamento. Um deles, o mais exaltado e inconformado, dizia que o casamento era uma instituição falida, o outro concordava balançando a cabeça, com um sorriso controlado no canto da boca. Eu estava em pé apoiado em um freezer, no entanto prestava, disfarçad...

Mary Quant & Yara

Professora de sociologia Bonita Vestida de saia à Mary Quant E ela nos matava Sabia que estava nos matando Pelo prazer de matar Assassina! O meu pensamento bradava. (Suas coxas morenas, torneadas eram suas armas). Eu dizia a mim, repetindo: Assassina! Ela virava-se de costas e escrevia no quadro uma frase Lá em cima. (Para nos provocar?) Como se eu não tivesse dito mentalmente nada. As vítimas idiotas, Olhavam e seriam metralhadas de uma única rajada, como num paredón. Ela mataria a todos nós, de uma só vez, Era questão de tempo, haveria mais aulas. E nós sabíamos que estávamos no corredor da morte. Só escaparíamos disso por sorte. .................................... Yara Leve-nos para o fundo do mar, Tu que sobes as escadas de saias curtas, Tu que movimentas os quadris a cada degrau. Tu sabes que nos mata, Como a professora de sociologia. Tu éis uma assassina nata, A tarde a Yara saía, Um cara vem buscá-la, na Rua Bahia, Num carro conversível vermelho. Nós víamos os dois saírem, boqu...

Hotel em Feira de Santana

Tomei o café da manhã no hotel que me hospedara por seis meses, em Feira de Santana. Era um bom café, sucos, com frutas da região, coalhada, etc. Não me esqueço do cheiro do melão caipira, aquele que a raposa saliva ao sentir o aroma de longe. Deixava a tapioca com manteiga da terra para o final, e a saboreava pausadamente, lentamente, como aprendi com minha sobrinha médica; ela, mesmo como estudante de medicina, já sabia dos benefícios de se comer pausadamente, prestando atenção aos sabores, como se fosse um ritual religioso. Ela nunca me disse nada sobre isto, porém eu prestei muita atenção a ela enquanto almoçava na casa de minha irmã em Campina Grande, pois foi a última a deixar a mesa. Sabem, muitas vezes não precisamos ouvir nenhum conselho diretamente, o que temos que fazer é prestar atenção aos gestos, aos comportamentos das pessoas e tirar as lições que nos interessam. Desci a escada do primeiro andar para o térreo, passei pela recepção e sai entusiasmado; o sábado me entusias...

Já comia bolacha

Sob sol causticante de meio dia um vendedor viajante, já cansado, suado e com sede, em algum lugar do sertão¹, arriou sua pesada mala: era um vendedor(às vezes um sírio libanês) de fitas, rosários, panos de prato, prendedores de cabelo(grampo ou birilo), alfinetes, colchetes, agulhas, novelos de linha para crochê, bicos rendados, etc. Parou em frente a casa de taipa, cuja parte superior da porta holandesa estava aberta, gritou e bateu palmas: “ô de casa”. Alguém respondeu lá dos fundos, talvez do quintal, pelo som que soara distante: “Ô de fora”. Ela, tímida disse: “boa tarde, se é que já é tarde, pela graça de Deus”. “Deus seja louvado", e, inclinando-se ligeiramente, o vendedor respondeu, tirando o chapéu de palha da cabeça. O vendedor abriu a mala, ofereceu suas mercadorias para a dona da casa, e pediu por favor um copo d'agua. (A dona da casa, que o viajante não sabia o nome, mas como era de costume, a chamou de dona Maria; caso fosse homem, o chamaria de seu José). Ela di...

Esporte

Nunca fui bom em esportes, futebol, vôlei, basquete, jogos de cartas, etc. Pratiquei quase todos estes mas sem muito apetite. O único esporte que me interessei foi o tênis, que comecei a jogar no Tênis Clube de Feira de Santana. Lá eu tinha um professor que jogava em campeonatos na Ilha de Itaparica, a terra do jornalista e escritor João Ubaldo Ribeiro, e me dava aulas no citado clube. A empresa que eu trabalhava me dera uma licença para usar provisoriamente o clube da forma que me conviesse, e eu o usei jogando tênis. É que morei em um hotel mais de 6 meses naquela cidade. Fiquei muito entusiasmado, comprei raquetes pra mim e para meus filhos. Mas percebi que o tênis era um esporte de gente fresca, de gente que se achava superior às outras pessoas. Um jogador mais adiantado não jogava com iniciantes; eles diziam que iam desaprender, perder o que sabiam. A gota d'agua foi quando jogando em duplas aqui no condomínio: eu perdi uma bola e meu parceiro ficou zangado, apesar de que ele...