Postagens

Cinco Minutos

Cinco Minutos Ewerton entrou apressado na estação do metrô Clínicas em São Paulo, passou pela catraca, desceu a escada rolante pelo lado esquerdo, correndo escada a baixo em direção a plataforma. Havia poucas pessoas aguardando o próximo trem, pois o anterior passara fazia poucos segundos. Esforçara-se ao máximo para ir naquele trem que passou, apesar de que o próximo passaria rápido, em torno de cinco minutos. Estava trabalhando em uma empresa há quase três meses e fazia tudo para não se atrasar. Vinte e cinco anos de idade, no último ano na faculdade de economia. Tem boa presença, veste-se de acordo com o que considera bom senso, com simplicidade e discrição. Porte físico atlético, conseqüência de muitos anos de prática de basquete; alto, ombros largos, como a maioria dos que praticam esse tipo de esporte. Cabelos pretos, lisos, bem aparados; barba cerrada de uns dois dias por fazer. É leitor voraz de literatura, sua mochila sempre tem um livro, fora o que ele ler no kindle, emb...

A Título de Registro

A Título de Registro Agora o ônibus deslizava pela planície sousense, à esquerda já se viam os primeiros coqueiros e os bangalôs de São Gonçalo, e lá em cima da “Pedra Talhada”, imponente: Marizópolis, a Mesopotâmia do Sertão. O rádio do ônibus tocava “Menina Veneno” de Ritchie. Quem ia descer em Marizópolis já se esgueirava para pegar seus pertences, tentando equilíbrio no corredor do ônibus. Para descer em Marizópolis, carecia de avisar ao motorista, porque a passagem vendida em João Pessoa tinha destino final a cidade de Cajazeiras. A viagem de João Pessoa-Marizópolis, durava quase nove horas, devido ao excesso de paradas que o ônibus fazia; umas necessárias, outras para atender acordos tácitos com donos de restaurantes, que nem sempre eram interessantes para os passageiros. Com mais ou menos a mesma distância São Paulo-Rio, na época, fazia-se a viagem em seis horas, em ônibus mais confortáveis. Naquela altura Marizópolis já fora desmembrada da administração de Sousa havia ...

A Estrada para São Gonçalo

A Estrada para São Gonçalo Como eu fizera muitas vezes, ao romper da aurora, após comer um pão da padaria de Dona Iracema, recheado com manteiga ou com nata de leite salgada e café, pegava apressado minha bicicleta Gulliver de pneus balão, prendia os livros escolares ao bagageiro e seguia em direção a estrada de terra, passava sobre o mata-burro de trilhos espelhados, devido ao atrito dos pneus dos veículos ao longo dos anos, que brilhavam à luz do sol ou da Lua, descia pedalando em direção a São Gonçalo. Dava para ver uma nesga de água do açude a direita, espremida entre colinas e serras arborizadas. Acompanhava a conhecida mata “Manga do Posto” dos dois lados da estrada, porém mais densa no lado esquerdo, e um cheiro do capim e das folhas das árvores, molhados pelo sereno da madrugada muitas vezes fria, fazia-se sentir. Pelo que me lembro das conversas que ouvia, dando conta de pessoas que se perdiam na mata; em uma época de chuvas, uma pessoa se perdera, não e...

Beber cerveja no bar

Beber cerveja no bar Uma dos prazeres da vida é beber cerveja no bar (no conceito americano do Norte de bar, como os dos farwests; para nós, tupiniquins, balcão), de preferência em um “pub”. Pub, cerveja e “Irish lamb stew”(carne de carneiro ensopada, à Irlandesa), têm tudo a ver, principalmente a quantidade de marcas de cerveja, tirada das máquinas como se fosse chopp, mas no Brasil não há um pub em cada esquina; um bar, sim. Acho que beber cerveja em casa não tem muita graça, ou o mesmo efeito que em um bar; em casa não é um ambiente adequado, não tem o clima. Quando fala-se de uma bebida destilada, whisky, vinho, prefiro beber em casa. Não quero dizer que faço isso sempre, é de vez em quando, depende do estado de espírito no momento, no dia. Às vezes beber cerveja sozinho em um bar é muito bom, areja a mente, coloca-se a cabeça em ordem. É difícil ficar só porque há outras pessoas no bar, no balcão. Elas puxam conversa, mudam de assento para ficar mais próximo de nós. Com...

A voz da moça

A voz da moça A voz da moça vinha de um sobradinho de fachada de tijolos aparentes; janelas venezianas pintadas de verde-escuro e molduras pintadas de branco; porta de madeira maciça da mesma cor das janelas; coberto com telhas francesas; daqueles imóveis que ainda se ver em algumas vilinhas nos bairros antigos de São Paulo; só nesses bairros centrais da cidade vêm-se iguais, enquanto as construtoras não comprarem para demolir e construir prédios de aparatamentos. Este sobradinho que me refiro estava em uma rua da Moóca. Digo que a voz era de uma moça, porque era voz de gente jovem, e a voz de gente jovem é fácil de se identificar. Ela cantava das 17:00 às 18:00, nenhum minuto a mais, nenhum minuto a menos. Algumas pessoas se aglomeravam nesse horário em frente ao sobrado para ouvir aquela voz ímpar que os de meia idade diziam que era de Karen Carpenter, de Celine Dion, outros de mais idade diziam que era a voz de Julie Andrews, outros ainda diziam que não precisavam ir tão longe...

A seca de 1958

A seca de 1958 Tia Apriginha (irmã de minha mãe Lucia Lins), Trajaninho seu marido, o qual nós crianças o tratávamos de tio, por ser casado com essa minha tia; e toda família, chegaram lá em casa em Marizópolis com móveis, roupas e ferramentas de trabalho de meu tio que era ferreiro. Colocaram tudo em um espaço que seria mais tarde uma garagem, e também no quintal. Foi em 1958, ano de uma das maiores secas que os Estados da Paraíba, Rio Grande do Note, Pernambuco, Ceará, enfrentaram. De repente a quantidade de moradores de nossa casa mais que duplicou. Naquele ano muita gente migrou para o Sudeste, principalmente para São Paulo e Rio de Janeiro, em busca de melhores condições de vida. Mas essa gente não era treinada, trabalhava na agricultura de subsistência, em biscates, não tinha habilidade para concorrer com os trabalhadores das indústrias em São Paulo e no Rio, cabendo-lhes quando muito, o trabalho duro de servente de pedreiro na construção civil. Enfrentavam temperaturas bai...

A Caixa d'água do Grupo Escolar Dr. Silva Mariz

A Caixa d'água do Grupo Escolar Dr. Silva Mariz O que mais chamou-me à atenção naquele dia de visita a Mesopotâmia do Sertão(geograficamente centrada entre os Rios Piranhas e do Peixe), a Pedra Talhada ou por último Marizópolis, foi a caixa d'água do Grupo Escolar Dr. Silva Mariz. Eu era criança, beiradeira, vindo do Sítio Carnaúba, situado em outro município que era Antenor Navarro, e só havia estudado com professores particulares, entre eles o professor Olinto, que juntava um magote (coletivo que meu tio Toinho Alves gostava de usar) de crianças para ministrar aulas na sala da casa de dona Maria Patrício, a eterna confeiteira de sequilhos, ainda na Carnaúba; creio que o primeiro nome dele era Antonio, como o meu o é. Olhei para caixa d'água demoradamente e fiquei a imaginar se um dia eu estudaria ali; e minha fantasia me conduzira a concluir que aquela edificação era um “tamborete”, uma “cadeira” sem o espaldar, onde os alunos sentavam, vestidos de uniforme, com seus ...