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Maria

Maria Ela dizia assim que eu entrava: oi paraíba, tudo bem? Somos do mesmo Estado, a Paraíba; ela de Patos(de Espinhara) e eu de São João do Rio do Peixe. Eu respondia rindo, pelo modo como ela me tratava, e era um maneira carinhosa que ela encontrava para agradar seu conterrâneo-cliente: tudo bem e você Maria? Ela respondia que estava tudo bem, sempre estava tudo bem pra ela. Era uma pessoa que trabalhava muito naquela padaria, a maior parte do tempo no caixa e tomava conta de tudo, sabia tudo, era de confiança do patrão. Ela contava coisas de Patos, as viagens que fazia pra visitar a família, do calor que faz na cidade, etc. Quando a mãe dela faleceu ela parou de viajar pra lá, disse que não era a mesma coisa sem sua mãe. Trabalhava desde os  15 anos na padaria, deve ter sido seu primeiro emprego. Estava com 39 anos naquele fatídico dia de outubro de 2019, que pôs termo à sua jovem vida. Foi em um acidente de automóvel na Av. Francisco Morato, uma avenida muito movimentada...

A Casa de Taipa

A Casa de Taipa Certa vez "AG" foi, a pedido de seu pai, a um sítio nos lados de Timbauba onde morava um casal em uma casa muito simples, uma casa de taipa. Era um casal jovem, sem filhos ainda. O marido, "J", era alto e magro, moreno, usava um bigode fininho, como se fosse um risco de carvão acima do lábio; não havia voltado da roça, conforme previsto, de tal forma que "AG" ficou a esperá-lo. Enquanto isto "AG" foi ao juazeiro frondoso, que espalhava sombra em frente da casa, embaixo do qual "AG" deixara o cavalo; tirou-lhe a sela, deu-lhe água e uma boa porção de milho trazida no alforje. A dona da casa, "S", que era uma moça de mais ou menos vinte anos, bonita, morena de cabelos pretos bem penteados e olhos da mesma cor, rosto redondo, sorriso largo que demorava a se desfazer. Vestia um vestido simples de uma chita amarela com flores pretas, cujo tecido ajudava a desenhar os contornos do corpo; também usava c...

Bebida

Bebida Será que as coisas que falamos nos bares ou mesmo em casa, depois de duas doses de whisky, ou alguns copos de cerveja não são as mais sensatas, as mais coerentes, as menos hipócritas e certas? Porque não temos coragem de falar sobre alguns assuntos quando estamos sóbrios, só quando bebemos? Por mais que digam que não, eu creio que quando bebemos falamos com mais facilidade, perdemos a timidez. Não podemos beber muito ao ponto de perdermos a razão, há um limite calculado pelo nosso corpo para cada um de nós; uns mais outros menos. Por que, para fazermos um discurso alguns de nós precisamos beber uma dose de whisky, de pinga ou seja lá do que for? Antes do amor uma taça de vinho, não mais; beber muito provoca sono e é brochante; põem-se tudo a perder. Meu pai, quando tinha uma notícia ruim para dá, para algum amigo ou alguém da família, convidava a pessoa para beber. Depois de algumas doses ele dizia: meu amigo, tenho uma notícia ruim para lhe dá, e dava a notícia ruim...

O Jantar

O Jantar O diretor de vendas bateu com um garfo na taça de vinho tinto de boa qualidade, ergueu-se, arrumou a gravata, temperou a garganta, levantou a taça para o alto, a altura de sua cabeça e disse entusiasmado: “estamos aqui reunidos nesta noite fria, para celebrar a assinatura de um adendo contratual com a “Company” que deverá corrigir os resultados negativos do contrato principal e ainda gerar lucro”. A informação provocou de imediato sorrisos de satisfação dos presentes. O contrato a que ele se referia, arrastava-se há anos com prejuízos financeiros e problemas técnicos, com os argumentos recorrentes de que tratava-se de um contrato estratégico, para conseguir fechar negócios com outras empresas. Entre as mais de vinte pessoas presentes a aquele jantar, em um restaurante no bairro San Telmo, em Buenos Aires, também estavam presentes pessoas das unidades da empresa em outros países da América Latina; também participava um empregado do departamento financeiro, bem a par da si...

Colidi em um poste

No dia 31 de dezembro de 2019, fui ao supermercado comprar algumas poucas coisas que faltavam para o reveillon. O supermercado já estava quase fechando, a porta estava aberta pela metade e eu passei por baixo dela com o corpo torto. Havia mais pessoas dentro da loja, na fila do caixa; como sempre coisas de última hora. Paguei as compras, entrei no carro, engatei a ré e ouvi o sensor de ré apitar e piscar insistentemente, achei que fosse devido a um carro que passava atrás naquele momento, mas não tão próximo; só senti o impacto do para choque traseiro em um poste, um som seco e cheio, como a queda de um corpo; "um corpo que cai." Devido ao chamado ponto cego, não enxerguei o poste. Aquele poste já está marcado de várias cores dos carros devido as constantes colisões, e essa foi a segunda vez que colidi nele. Desde a primeira vez sempre estaciono longe daquele "maledeto", mas desta vez esqueci e ..... bum! Fui embora, porque não adiantava nada descer e olhar o estr...

O ônibus

Há algumas informações gravadas no cérebro que são difíceis de saber-se se aconteceram ou se foram sonhos; ou ainda, como se diz em Inglês: “Wishful Thinking”; igualmente com alguns arquivos em computador que mantêm-se guardados para quem sabe um dia acessar-se; a diferença é que no computador pode-se deletá-las permanentemente quando desejar-se, enquanto que as do cérebro fica-se toda a vida lembrando, basta alguma palavra-chave e pronto. A estória seguinte está latente há muito tempo, remete a minha infância : O ônibus estacionou em frente a casa de meu avô paterno, no terreiro arenoso; tinha aquele tipo de carroceria antiga, de cantos arredondados e janelas de vidro pequenas, ovais; a boleia, o capô e o motor localizavam-se na parte dianteira. Era como se a carroceria tivesse sido montada em cima do chassi de um caminhão, mantendo a dianteira original. Havia uma escada na parte traseira, que subia em direção ao teto e dobrava para alcançar o bagageiro. O ajudante do motoris...

Cobrador

Cobrador Meu pai não gostava de cobrar as contas dos fregueses para quem ele vendia fiado, sobrava para nós filhos fazermos esse trabalho. E para nós era uma atividade desagradável, mas não podíamos deixar de fazer. Eu achava um absurdo chegarmos ao ponto de cobrar dívida de um freguês, todo mês; raramente vinham saldar seus compromissos espontaneamente. Eu ficava pensando em uma folhinha do calendário anual que mostrava um comerciante que vendia fiado: magro, barbudo, triste, acompanhado de um cachorro esquelético; por outro lado, outro comerciante que só vendia à vista: gordo, de barba raspada, alegre e o cachorro gordo. Havia alguns estabelecimentos comerciais que exibiam uma placa com a frase: “fiado, só amanhã.” Mas era difícil um comerciante sem “pendura”, sem caderneta. Chegava no cidadão e dizia: “meu pai pediu-me para receber a conta”, e falava o valor, exibindo uma caderneta. Às vezes o freguês pedia-me para passar outro dia, ou na semana seguinte. Quer dizer, ele...