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Cobrador

Cobrador Meu pai não gostava de cobrar as contas dos fregueses para quem ele vendia fiado, sobrava para nós filhos fazermos esse trabalho. E para nós era uma atividade desagradável, mas não podíamos deixar de fazer. Eu achava um absurdo chegarmos ao ponto de cobrar dívida de um freguês, todo mês; raramente vinham saldar seus compromissos espontaneamente. Eu ficava pensando em uma folhinha do calendário anual que mostrava um comerciante que vendia fiado: magro, barbudo, triste, acompanhado de um cachorro esquelético; por outro lado, outro comerciante que só vendia à vista: gordo, de barba raspada, alegre e o cachorro gordo. Havia alguns estabelecimentos comerciais que exibiam uma placa com a frase: “fiado, só amanhã.” Mas era difícil um comerciante sem “pendura”, sem caderneta. Chegava no cidadão e dizia: “meu pai pediu-me para receber a conta”, e falava o valor, exibindo uma caderneta. Às vezes o freguês pedia-me para passar outro dia, ou na semana seguinte. Quer dizer, ele...

Pai Tonho

Pai Tonho Aquele dia que visitamos o meu avô paterno, Pai Tonho (como nós netos o tratávamos), na década de setenta, eu sentira que seria a última vez que o veria; éramos recém casados: minha mulher e eu. Ele era viúvo, minha avó Mãe Iaiá(também, nós netos a tratávamos de mãe), havia falecido há poucos anos. Ele estava sentado em sua rede de tecido xadrez de várias cores vivas. Os mesmos cabelos brancos, ralos, deitavam sobre a cabeça; rosto de muitas dobras e rugas; mãos que exibiam, como documentos, as provas de longevidade e muito trabalho pesado. Estava com mais de noventa anos e enfrentava os duros efeitos de um diabetes tipo dois e da demência ou caduquice, em uma época que não havia muitos remédios, e os médicos que raramente o atendiam, porque morava em um sítio longe dos centros urbanos, apesar de bons, eram clínicos gerais. Ele perguntou para minha tia Mimosa: "quem é?" Ela respondeu "é Genival" É por este nome que sou conhecido naquelas bandas do se...

Elisabete

Elisabete Algo estranho acontecera a Elisabete naquela manhã de sábado, às seis horas. Ela acordara e levantara-se rápido, ouvira algumas pessoas conversando, no entorno um silêncio profundo, ouvia-se apenas barulho de talheres, louças, xícaras, pires. Ela abriu uma parte da cortina e da janela de seu quarto em um prédio de três andares, em um condomínio de prédios padronizados, e olhou para baixo. Estava frio e ventando bastante em meados do outono; no entanto, havia três homens sentados a uma grande mesa de madeira, coberta por uma toalha branca rendada, sobre um gramado bem cuidado, vestidos de ternos pretos e gravatas brancas; no meio deles um rapaz vestia-se um pouco diferente dos demais, era também um terno preto, contudo a camisa era branca e gravata rosa; na lapela uma rosa champanhe. Comiam rapidamente, de cabeças baixas, olhando para os pratos, como se tivessem pouco tempo ou estivessem famintos. Os três homens estavam de costas para ela que olhava da janela, sendo...

Paciente indisciplinado e preguiçoso

Paciente indisciplinado e preguiçoso O médico disse, após ouvir as queixas de um paciente: ou você está comendo muito rápido ou está comendo muito. Paciente: acho que as duas coisas, doutor. Médico: pois é. Por favor pese-se na balança ali no canto da sala e me informe o peso. A sala era pequena, o médico setava-se a uma mesa quadradinha, parecida com as usadas por cambista de jogo do bicho, apenas um pouco maior; o espaldar da cadeira encostava na parede, que consistia de uma divisória de madeira. O paciente, depois de poucos passos, subiu na balança digital: 91 quilos, doutor. Médico: qual é sua altura? Paciente: um metro e setenta e poucos. Médico: setenta e poucos? Paciente: não me lembro exatamente. Médico: você faz ginástica? Paciente: faço caminhada, quando não está chovendo ou fazendo muito frio e quando não acontece uma dessas intempéries climáticas, às vezes tenho preguiça. Médico: devido a suas queixas de refluxo e estômago estufado, vou pedir al...

Akemie-quem-diria-que-você-cedo-ia.

As conversas na mesa redonda vai faltar, Alguém que gostava de falar; Negando sua origem de gente calada. Mas esta não, esta falava! E dava gosto ouvi-la!   Suas experiências deviam vir das profundezas, Transmitidas por gerações: Quando falava da vida; Pela força, convicção, quando falava das comidas, E das coisas orientais.   O sons de suas palavras devem estar gravados no ar, Aonde também estão gravados o canto dos pássaros.   Quem sabe um dia a reencontraremos, Quem sabe um dia a ouviremos de novo. Akemie, quem diria que você cedo ia. 26/10/2019 A.Lins.S.

Feio

Feio Ela dizia: você é muito feio! Eu me retraia, como adolescente tímido. Ela repetia quantas vezes queria, bastava ter junto a nós alguma menina. Eu já estava ciente e convencido; não mais me importava. Ela dizia isto em frente as outras meninas, isto me chateava. Depois ela quis conversar comigo, sozinhos. Ela não queria que as outras me quisessem.

Carta para minhas primas: Iraides, Iracy e Ivone.

Carta para minhas primas: Iraides, Iracy e Ivone. Prezadas e queridas primas, O tempo passou rápido, indiferente a nossos apelos e desejos para reduzir o ritmo. Faz muito tempo que não temos contato, cuja falta pode ser justificada de várias formas, mas a esta altura do campeonato, no pico de meus mais de 72 anos, faço uma análise mais profunda: não nos encontramos por falta de priorizarmos o contato, o encontro, em detrimento de outros compromissos; da distância, de nossos cuidados com a família, enfim, com a vida. Não foi por esquecimento, pelo menos de minha parte, pois mantenho viva a bela imagem de vocês. Quando vou para Marizópolis, ou em contato por telefone com meus irmãos, é comum falarmos sobre vocês; aí falamos: Iraides e Iracy, moram em Recife, que é distante, fica mais difícil vê-las; Ivone mora em Nazarezinho. Gilvaneide diz que via Ivone com mais frequência, pois ela visitava muito nossa mãe. Durante muitos anos tenho procurado vocês no Facebook, e esta ...