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Elaine

  Um dia, não muito distante de hoje, você  disse: “vamos nos encontrar e almoçar juntos, em algum lugar na Paulista, como já fizéramos antes” e eu disse: vamos. Ela disse “porque você é o meu tutor, você é o cara.” Eu havia ajudado-a, a defendê-la para ocupar uma posição no departamento financeiro de uma grande empresa. E ela fez sucesso pelo seu trabalho, sua competência, sua inteligência; não havia nada de mais apenas coloquei sua cabeça numa bandeja, como pediu Salomé. Sabe quando você aposta em uma pessoa? Quando você vê e diz esta é a pessoa certa. Foi o que aconteceu. Ela era a pessoa certa: humana, competente, mãe, e mais tarde avó apaixonada. Eu via na foto a   cara do neto olhando pra ela, apaixonado; porque era fácil se apaixonar pela Elaine. Sinto um vazio imenso em mim, por sua falta, sinto-me perdido no espaço; como um astronauta que estava preso por um fio a nave e por fim desprende-se e perde-se no vazio do espaço.

Dia do chocolate

  Lembrei-me de uma moça, depois senhora, sobrenome holandês, que casara com o Country Manager da empresa, de sobrenome americano. Os holandeses têm sobrenomes que são precedidos por preposições(perdão pelo pleonasmo): van der Escher, por exemplo; também têm: de, van. Nós temos os José da Silva, os Antonio dos Santos, eles têm van der Miller, van Vlit, etc. E a senhora que me refiro fora morar nos Estados Unidos, com o marido. Sabendo de alguém que ia viajar do Brasil para a unidade americana, ela ligava para pessoa e dizia: TRAGA-ME SONHO DE VALSA, caso contrário sua promoção ou seu aumento de salário vai pro saco! Comigo acontecera de trazer um vestido de noiva de Miami, para a futura esposa de um diretor. A secretária do vice presidente da empresa comprara o vestido numa rua tipo "São Caetano" de Miami, colocou-o numa caixa e eu trouxe, junto com meus alfarrábios. Fui convidado para o casamento, bebi espumante(não pode falar champanhe, se não os franceses ficam bravos!), ...

O fusca de meu pai.

O fusca de meu pai Meu pai teve dois Jeeps: um 1953; outro, 1962. Eu gostava do Jeep 1953. Era muito bonito, lembrava os filmes de guerra(lembro de uma foto do General McArthur sentado em um desses Jeeps, fumando um cachimbo de piteira longa); naquela época falava-se muito na guerra, terminada em 1945, no entanto, os efeitos dela ainda permaneciam; a fumaça ainda não tinha sido totalmente dissipada. Meu pai aprendera a dirigir na estrada, quando tinha o Jeep 1962; antes, no Jeep 1953, tinha um motorista que não trabalhava em tempo integral, só quando meu pai precisava ir à alguma cidade ou para comprar bois de corte, o pagava para conduzir o veículo. Fui morar em Recife e meu pai nessa época comprara um fusca que, neste momento, não lembro o ano. Ele gostava demais do carro e dirigia na estrada, que é muito movimentada, com grandes caminhões, etc. A estrada que me refiro vai de João Pessoa (Município de Cabedelo) até a Transamazônica, é a BR-230. Toda vez que eu ia visit...

A "Louca".

Ela fazia as refeições com os donos da casa, dos quais era amiga de longa data, conversava sobre sua família, ria de coisas toscas, mostrando sua obturação de ouro em um dos dentes superiores. Inteligente, nunca estudara em escola formal, tudo que sabia era soletrar algumas palavras e escrever poucas; aprendendo com os outros, devagar, numa vida experiente, observada e de certa forma bem vivida. Após as refeições ela recolhia os pratos, talheres e punha todos sobre a pia da cozinha. Antes de começar a lavar erguia as mãos ao céu e agradecia a Deus por ter se alimentado mais um dia, e terminava se benzendo. Diziam-na louca, porém a convivência de alguns dias com ela, em muitas oportunidades, tinha-se a nítida impressão que ela era lúcida. Diziam que ela não mais gostava de marido, do qual tivera quatro filhos. Como perdera o interesse sexual pelo marido, procurava relacionamentos rápidos e comportava-se como desajustada, falando coisas desconexas; para disfarçar seus desvios de ...

Aracati & Outros/as

Aracati & Outros/as A falta de energia elétrica, nos sítios de meus avós nem era falta(só tem-se falta daquilo que já teve-se e não tem-se mais). Havia lampiões, lamparinas, velas; e pernilongos, muriçocas, carapanãs, para matar nos braços, nas pernas, no pescoço; até em torno das nove horas da noite quando habitualmente sentávamos para prosear, olhar as estrêlas, no terreiro em frente a casa. Esses animais/insetos eram espantados pela fumaça de esterco do gado bovino; era recolhida dos currais e das pastagens, colocada ao sol para secar e quando seca guardada, onde guardáva-se selas, arreios, estribos dos cavalos; enxadas, utensílios usados para arar a terra. Colocava-se pedaços dos estercos em latas de goiabada vazias, acendia-se e pronto, a fumaça subia, com cheiro de capim seco queimado. Nesse horário entrava(e ainda entra) o “Vento Aracati”, refrescante, que vem das praias do Ceará, percorrendo longo caminho desde o litoral até chegar no sertão da Paraíba. Por causa desse ve...

A viagem

A viagem Aquele dia de fevereiro de 196x começou a mudar a vida de GL. Partiu de sua cidadezinha nos confins da Paraíba, na beirada do Ceará, com os olhos marejados, ainda menor de idade(considerando que naquela época quem tinha menos de 21 anos era menor; contudo, tinha 19 anos), levando em conta que 194x o ano que nascera, em meados do mês de Áries. Não queria olhar para trás; atrás de si estavam seu pai, sua mãe e seus irmãos com os corações partidos. À medida que enfrentava a estrada as lembranças iam ficando mais velhas, sem embargo, não esquecidas; e o futuro ia chegando aos poucos e virando definitivamente passado. A viagem fora feita na boleia desconfortável de um caminhão carregado de mercadorias, veículo cujo proprietário fora amigo da família de GL. São Paulo era o sonho de destino de quem queria trabalhar, estudar para ganhar a vida. A maioria dos migrantes iam trabalhar em serviços pesados, de baixa remuneração. Apesar disso a Capital de São Paulo era o Eldorado no im...

Sonho

Era uma pequena sala, com o jeito de um ambiente escolar; para dar crença a esta narrativa, aparecia uma professora do meu curso primário, do Grupo Escolar Dr. Silva Mariz. (Logo aquela escola que era tão simples e tão bonita, com salas arejadas, cheias de carteiras pretas, com bancos compartilhados, locais para canetas-tinteiros, local para colocar nossos livros, lousa ampla, onde sempre sobrava escrito em giz turma do dia anterior, ou vestígios de palavras e frases que, com um pouco de esforço, dava para subentendermos e desvendarmos os significados). Ela mostrava em uma estante uns livros muito bem encadernados, com lombadas verde-escuras, trabalho em capas duras. Aparentemente queria encomendar outras encadernações de outros livros. Naquele instante aparece o ex-presidente Obama, sem quê nem pra quê. Ele olha e pega um dos livros, elogia a encadernação, a lombada e diz que que é "um trabalho artístico, bonito e caro". E foi só isto, um sonho onde sempre cabe o impossível ...